Avaliação Nutrológica

Avaliação de Vegetarianos X Não Vegetarianos - B12 e B9

Nesse artigo, darei continuidade ao tema das avaliações comparativas falando sobre os dados referentes ao metabolismo da Vitamina B12 e Ácido Fólico (vitamina B9).

Os dados apreentados nesse texto são parte do que encontrei na minha tese de mestrado, com tema: " Avaliação do estado metabólico e nutricional de indivíduos vegetarianos e onívoros".

Todos os dados sobre a escolha dos participantes, podem ser vistos no texto sobre avaliação ligado a doenças cardiovasculares (nessa mesma seção, sobre avaliação nutrológica).

ÁCIDO FÓLICO

É a vitamina B9.

Importante em diversas reações químicas no organismo, atua, dentre outras funções, na formação das células vermelhas do sangue em conjunto com a vitamina B12.

Sua principal fonte nutricional é o reino vegetal, especialmente frutas e verduras. Conseguimos facilmente atingir suas necessidades nutricionais, assim como elevar seus níveis corporais (quando ela está deficiente) por meio da alimentação adequada.

Os estudos internacionais demonstram que os vegetarianos costumam ter níveis sanguíneos mais elevados do que as pessoas que comem carne.

No entanto, isso vai sempre depender das escolhas nutricionais do vegetariano.

Vale ressaltar que a avaliação do nível sanguíneo de Ácido Fólico é sujeita a má interpretação se não conhecermos os fatores que alteram seus níveis.

Há condições em que essa vitamina é deslocada da célula e aumenta no sangue, dando a falsa impressão de que os níveis estão adequados. Isso precisa ser sempre avaliado ao dosarmos os níveis sanguíneos de ácido fólico.

VITAMINA B12

Ela é incorretamente associada à deficiência quase que exclusiva da dieta vegetariana (vegana), pois partimos do princípio de que: se eu como, não tenho deficiência e, se não como, tenho carência. Ledo engano!

Cerca de 50% dos vegetarianos têm carência de B12. Cerca de 40% dos não vegetarianos na América Latina tem carência dela. Observe que a diferença é muito pequena!

Parece incoerente essa diferença, pois sabemos que as fontes de B12 são carnes, queijo, ovos e laticínios. A incoerência está no fato de pensarmos que basta comer para estar nutrido. Leia mais sobre isso nos textos sobre a vitamina B12 na seção dos "Nutrientes" nesse site.

Assim, como o ferro, a vitamina B12 depende muito mais de como a utilizamos do que de quanto comemos.

A utilização corporal da vitamina B12

Vou abordar apenas 2 pontos importantes dessa vitamina, pois nesse site você encontra textos bastante completos sobre ela.

Primeiro: de acordo com nossa atividade intelectual, a necessidade de B12 pode ser maior. Como ela é utilizada no metabolismo do sistema nervoso, tudo indica que, ao utilizarmos muito o intelecto, o seu consumo é maior.

Segundo: nossa vesícula biliar lança, diariamente, vitamina B12 no intestino. Pelas células intestinais, reabsorvemos a vitamina, que volta para o sangue. Assim, há um reaproveitamento da B12. Quem é eficiente nessa reciclagem, perde pouca B12. Quem é ineficiente, vai perdendo B12 pelas fezes. O que chama atenção nesse ciclo, é que a quantidade de B12 lançada ao intestino pela vesícula biliar, pode ser muito maior do que conseguimos ingerir, mesmo comendo muita carne.

Assim, não é possível dizer, apenas pela quantidade de B12 ingerida, como estão os níveis sanguíneos da pessoa.


Diagnóstico da deficiência de vitamina B12

Os níveis de referência de normalidade para a vitamina B12 vão de cerca de 210 a 980 pg/mL.

No entanto, essa faixa não foi feita para avaliar a deficiência dela, mas sim para termos uma idéia dos valores que a população, de forma geral, apresenta.

A deficiência de vitamina B12 se faz em 4 estágios. Nos dois primeiros estágios é praticamente impossível fazermos o diagnóstico, pois não temos recursos laboratoriais disponíveis no Brasil para isso. Na primeira fase já há deficiência intracelular. É apenas a partir do terceiro estágio que o diagnóstico pode ser feito. Quando isso ocorre, os níveis sanguíneos de vitamina B12 costumam estar abaixo de 490 pg/mL.

Assim, toda dosagem de B12 abaixo de 490 pg/mL é potencialmente inadequada e deve ser corrigida.

Nesses níveis, geralmente há sintomatologia clínica, manifesta por alterações cognitivas (concentração, memória, atenção...).

Outro exame que pode ser utilizado no diagnóstico da deficiência, é a Homocisteína, um composto que se eleva na deficiência de Vitamina B12 e/ou Ácido fólico, dentre outros nutrientes. Ela não é necessária e nem fundamental para a avaliação da B12, mas pode ser utilizada. Níveis adequados são abaixo de 8 µmol/L, apesar dos valores de referência atuais considerarem normais os índices até 10 µmol/L.

Assim, é importante que a B12 esteja acima de 490 pg/mL e a homocisteína abaixo de 8 µmol/L.


OS DADOS QUE ENCONTREI NA TESE

Ingestão de ácido fólico e vitamina B12

Esperávamos que a quantidade de ácido fólico ingerida fosse maior no grupo vegetariano, mas não houve diferença significativa entre eles e os não vegetarianos. Isso ocorreu, pois os onívoros tinham uma boa ingestão verduras e frutas.

Já a ingestão de vitamina B12, como esperada, foi maior no grupo onívoro (2,78 mcg/dia) e ultrapassava a necessidade mínima diária preconizada (2,4 mcg/dia). Os vegetarianos ingeriam menos (0,71 mcg/dia) do que o preconizado.


Avaliação dos níveis sanguíneos:

Ácido Fólico

Nenhum dos participantes (vegetarianos ou não) apresentou deficiência dessa vitamina.

De foram equivalente entre os grupos, cerca de 77% dos indivíduos tinham níveis em faixa considerada normal e cerca de 23% em faixa acima dos limites de normalidade, o que não representa problema algum.

Assim, vegetarianos e não vegetarianos apresentaram níveis sanguíneos equivalentes desse nutriente. Isso é diferente do que os estudos têm mostrado, apontando maior concentração sanguínea de ácido fólico nos grupos vegetarianos.

Vitamina B12

O grupo vegetariano e não vegetariano apresentou níveis sanguíneos equivalentes de vitamina B12:

348,7 pg/mL nos onívoros e

350,2 pg/mL nos vegetarianos.

Isso nos mostra que a ingestão de B12 não é o principal determinante dos níveis sanguíneos da vitamina, mas sim, como nosso corpo a utiliza.

Os níveis encontrados mostram claramente que estavam abaixo de 490 pg/mL, que é o mínimo que deveríamos manter a B12.

Assim, onívoros e vegetarianos devem, igualmente, ficar atentos à B12 e suplementarem quando em nível insuficiente, como ocorrido no nosso estudo.


Homocisteína

Não houve diferença estatística significante entre os grupos, apesar de haver uma tendência dos vegetarianos apresentarem níveis mais elevados (8,94 µmol/L nos vegetarianos e 10,51 µmol/L nos onívoros).

Observem que ambos tinham níveis inadequados, acima do que é preconizado (8 µmol/L).


Conclusão

A deficiência de vitamina B12 deve ser sempre avaliada em vegetarianos e não vegetarianos, pois atinge os dois grupos de forma equivalente, não sendo diretamente associada à quantidade de B12 ingerida. Pela elevada prevalência de deficiência (avaliada pelos níveis de B12 e homocisteína inadequados), o tratamento foi instituído nesses indivíduos.

Os níveis de ácido fólico foram equivalentes, mostrando que a escolha alimentar pode influenciar os níveis sanguíneos encontrados.

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