Avaliação Nutrológica

Imprimir

Médico Vegetariano?

Escrito por Dr Eric Slywitch. Publicado em Avaliação Nutrológica.


Para muitos vegetarianos, a procura por um profissional de saúde pode ser bastante estressante. Afinal de contas, para os que não olham para o vegetariano com bons olhos, ou para os que não estudaram sobre o assunto, a certeza de que todos os problemas do vegetariano são decorrentes da falta da carne na dieta é uma constante.

Diariamente atendo pessoas com queixas sobre o desrespeito quanto à opção filosófica, ética e de saúde que adotaram ao sentarem na frente de um médico para uma consulta. Por esse motivo resolvi escrever sobre esse assunto.

O médico que atende o vegetariano precisa ser vegetariano?

Não, absolutamente não!

Da mesma forma, o médico não precisa compartilhar dos mesmos ideais, princípios e religiões para atender uma pessoa que tenha valores diferentes dos seus.

A função do médico, ao atender alguém, é avaliá-lo e orientá-lo frente aos conhecimentos que tem, respeitando os princípios e valores do paciente. Essa atitude é básica em qualquer relação ética entre médico e paciente.

Um bom profissional que trabalhe com alimentação, deve estar apto a avaliar qualquer indivíduo, em qualquer situação, independente da dieta que segue. Com uma avaliação bem feita, ficam muito claras as modificações que devem ser feitas, seja na alimentação, estilo de vida, atividade física, sono, uso de suplementos, medicamentos...

O médico que atende o vegetariano precisa saber avaliar o organismo humano e respeitar as diferenças que todos nós temos. Se ele sabe fazer isso, será um bom médico para o vegetariano.

Para muitos vegetarianos, ter um profissional que segue a dieta vegetariana traz um conforto e uma sensação de coerência com o que sabe sobre os animais, o meio-ambiente e a saúde. No entanto, diversos profissionais podem estar aptos a atender um vegetariano mesmo sem serem vegetarianos.


O médico precisa saber que você é vegetariano?

Depende do que você está procurando na consulta.

Na minha especialidade (nutrologia) é óbvio que essa informação é fundamental. Imagine montar um cardápio com ovos e laticínios para uma pessoa que é vegana! Ou você se consultar com um nutrólogo que não sabe atender vegetarianos e omitir dele que não come carne.

Mas há algumas situações onde não é necessário dizer que você é vegetariano. Digo isso porque alguns vegetarianos entram na sala de médicos (que desconhecem o vegetarianismo) já dizendo que são vegetarianos e, nessa situação, ouvem absurdos e desrespeitos sobre o seu estilo de vida.

Se você tem um acompanhamento nutrológico adequado, são poucas as situações que precisará dizer ao médico sobre a sua escolha de não comer carne. Especialmente se ele não questionou nada sobre a sua dieta.

Se não tem um acompanhamento, encontre um médico que tenha uma noção ética e que, se não entende sobre o vegetarianismo, pelo menos seja um pesquisador, para trazer a você estudos e informações, e não críticas.

Quem procura acha....

Uma vez uma paciente me disse, brincando: "uma pessoa saudável é aquela que ainda não foi avaliada adequadamente pelo seu médico".

Via de regra, todos nós temos algo para ser melhorado no organismo. Com uma avaliação médica e nutrológica adequada posso dizer que é raríssimo encontrar alguém com o organismo funcionando com todas as funções e nutrientes adequados. Isso vale para quem come e quem não come carne. As deficiências nutricionais e distúrbios orgânicos são muito mais freqüentes do que podemos imaginar. Basta saber ler os sinais que o corpo mostra, a história de vida e ler os exames que são feitos.

Grande parte dessas alterações são porque as pessoas não comem adequadamente, não se exercitam adequadametne, não dormem adequadamente e porque as emoções são potentes modificadores do nosso funcionamento corporal.

Prevenção ou medicação?

Tenho pacientes que tinham pavor de ir ao médico, pela idéia de que “médico gosta mesmo é de receitar remédios”.

Quando a avaliação clínica é bem feita, fica muito claro quando o tratamento necessita medicamentos ou não.

Meu grande amigo, o Dr Antonio Cláudio Duarte, tem uma célebre frase: “Alimento, medicamento, treinamento, pensamento e instrumento (cirurgia). Cada qual no seu momento”.

Uma boa avaliação mostra o que é mais importante em cada momento. Por mais que possamos associar todos eles, sempre há um deles que tem o maior peso no momento.

Uma boa avaliação, por exemplo, pode demonstrar que uma pessoa está em risco para ter diabetes daqui uma a duas décadas e pode ajudar a eliminar ou atenuar fatores de risco para o seu desenvolvimento.

A correção de diversas deficiências nutricionais traz uma qualidade de vida muito maior a o indivíduo. Podemos melhorar a expectativa de vida, com mais qualidade de vida, frente à avaliação médica e nutricional adequada.

Quem cuida do que tem, tem por mais tempo.

Há situações médicas que você terá que comer carne?

Não, não há!

Nenhuma situação médica ou nutricional exige que um vegetariano volte a comer carne, pois não há deficiências nutricionais e nem situações clínicas (médicas) onde a carne seja fundamental para corrigi-las.

Grave bem: todas as deficiências que um vegetariano pode ter são corrigidas sem o uso da carne ou de derivados animais.

E não se esqueça: quem come carne também tem deficiências, inclusive de ferro e vitamina B12.


Uma vitamina? Multivitamínicos?

Quando o uso de uma fonte extra de vitaminas e minerais é necessário eu costumo seguir o princípio de que quando prescrevemos muitas coisas é porque não sabemos o que estamos prescrevendo. Há diversas correções nutricionais que envolvem a prescrição de alguns nutrientes juntos, e mesmo medicamentos necessitam de ajustes em alguns nutrientes, mas há critérios claros para saber o que deve ser associado. Eu não compartilho a idéia de se prescrever um caminhão de coisas, pois acredito que isso é feito quando a avaliação não foi adequada e quando se está atirando para todos os lados.

Os meus exames vieram com alterações!

Muita calma nessa hora!

A interpretação de exames não deve ser feita apenas olhando a faixa de normalidade deles, que é o que o leigo geralmente faz. Uma avaliação laboratorial detalhada, completa e assertiva é uma arte complexa que o médico demora anos para desenvolver.

Os exames (elementos do sangue ou de outros locais) conversam entre si e elementos alterados podem representar boas coisas, assim como exames dentro da faixa de normalidade podem descrever deficiência importantes.

Cada elemento avaliado tem uma fisiologia e metabolismo específico e a sua associação pode dizer coisas diferentes. Como exemplo, um mesmo composto pode nos dar informação sobre o rim ou sobre a ingestão de proteínas. Há outros que falam sobre as vias biliares ou sobre os ossos. É necessário saber interpretar o que eles conversam entre si.

O vegetariano tem exames diferentes?

Sim, alguns exames são diferentes no vegetariano.

Toda semana recebo pacientes com exames “alterados” que, por orientação médica, foram recomendados a procurar um profissional para orientá-los, pois a falta da carne estava trazendo repercussões ao organismo. Grande parte dessas alterações são fisiológicas para o vegetariano, indicam um excelente funcionamento orgânico e nada tem a ver com deficiências.

Se o profissional entende profundamente sobre os exames, não importa se ele conhece essas alterações mais características do vegetariano, pois conseguirá perceber quando o corpo está ótimo, mesmo quando há valores fora do normal.

Avaliação de exames laboratoriais devem ser feitos pelo seu médico.

Não perca o sono lendo os números dos exames sozinho em casa!

Tenho medo de encontrar algo errado nos meus exames!

Alterações em exames laboratoriais ocorrem por diversos motivos, incluindo estresse, falta de sono, irregularidade na freqüência e horário das refeições, deficiência ou excesso de nutrientes, falta ou excesso de exercícios físicos, abuso de álcool e medicamentos, doenças, erro no momento da coleta do exame, tempo de jejum desrespeitado, entre outros fatores.

A vida de muitas pessoas segue um ritmo que vai além da capacidade que o organismo agüenta. E quando avaliamos os sintomas das pessoas e os exames pelo olhar não apenas da detecção de doenças, mas do bom funcionamento orgânico, quase sempre encontramos algo alterado.

Em muitos casos o tratamento pode ser dormir mais e melhor, às vezes se exercitar, outras vezes modificar a alimentação. Suplementos ou medicamentos são regra em outros casos.

Ter algo errado encontrado em uma avaliação médica não significa ter que utilizar remédios. Sempre que possível a primeira forma de atuação é com medidas comportamentais. Em outras situações, o medicamento pode ser a primeira escolha.

O vegetariano resolve fazer um check-up...

O que observo ser muito comum é o vegetariano que nunca passou por uma avaliação médica/nutrológica antes de se tornar vegetariano. Devido à preocupação frente à nova dieta, ele acaba procurando um profissional para avaliá-lo e algo é encontrado. Pronto! Viu o que a dieta vegetariana fez com você? E aí começa o terrorismo!

Se você encontrou (ou se encontraram em você) qualquer deficiência, calma! Quem come carne, e muita carne também tem! Se os exames tivessem sido feitos quando você comia carne, deficiências também seriam encontradas e talvez essas mesmas que atribuem ao fato de você ser vegetariano estavam presentes quando você comia carne. Há vários “carnívoros inveterados” com carência de ferro e vitamina B12, por exemplo. Basta dosar para ver!

Homens, cuidem-se!

Em agosto de 2009 o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Saúde do Homem. Segundo o Ministério da Saúde, de cada 3 adultos que morrem, dois são homens. Os homens vivem, em média, sete anos a menos do que as mulheres e têm mais doenças cardiovasculares, diabetes, câncer, colesterol elevado e hipertensão arterial. Grande parte dos homens, seja por razões culturais ou educacionais, só procuram auxílio médico quando estão em situação crítica e quando o mal que sofrem os afasta do trabalho. Nesse estágio, muitas vezes foi perdido muito tempo para um diagnóstico precoce ou de prevenção.

O governo federal espera que, com essa campanha, os homens procurem um serviço de saúde pelo menos uma vez ao ano. O Brasil é o primeiro país da América Latina e o segundo do continente americano a implantar essa política.

No meu atendimento em consultório, considerando o público vegetariano, tenho muito mais pacientes do sexo feminino do que masculino, o que me sugere que não há mais mulheres vegetarianas do que homens vegetarianos na população, mas sim que os homens vegetarianos também seguem esse padrão cultural de menor procura por avaliação da sua saúde.