Avaliação Nutrológica

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Avaliação de vegetarianos X Não vegetarianos - DOENÇA CARDIOVASCULAR

Escrito por Dr Eric Slywitch. Publicado em Avaliação Nutrológica.

No mês de abril de 2010 defendi minha tese de mestrado com o tema: “Avaliação do estado metabólico e nutricional de indivíduos vegetarianos e onívoros”.

Alguns dados encontrados estão de acordo com o que encontramos na literatura internacional, mas outros não.

A escolha dos participantes

Para captação dos dados, utilizei pacientes atendidos no meu consultório, dentro do que faço diariamente numa avaliação médica nutrológica. Nessa avaliação, verifico o metabolismo de carboidratos, proteínas e gorduras, hidratação, oxigenação, assim como dos principais nutrientes que causam impacto quando deficientes em nosso organismo. Associado a isso, é possível também verificar o grau de fadiga, irregularidade de hábitos e ajustes necessários em termos de hábitos, alimentação, atividade física e tratamento medicamentoso (nutrológico ou não).

A escolha dos participantes

O grupo estudado foi composto exclusivamente por mulheres, entre 20 e 50 anos (que não estavam grávidas ou amamentando) e com peso adequado para a altura (o que chamamos de eutróficas). O tempo da dieta padrão que seguiam era de, pelo menos, um ano. Elas não utilizavam medicamentos, suplementos ou tinham qualquer doença que influenciava o estado nutricional. Não fumavam, eram sedentárias ou praticavam atividade física, no máximo, 3 vezes por semana.

O funcionamento da glândula tireóide e do fígado estavam adequados e foram avaliados por meio de exames laboratoriais.

Foram incluídas no estudo apenas as que traziam exames de um laboratório específico, para que não houvesse métodos diferentes sendo usados para as dosagens. Dezoito tipos diferentes de exames de sangue foram coletados e cerca de 32 itens presentes nesses  exames foram utilizados para avaliação dos resultados laboratoriais.

Homogeneidade das características das participantes

Foram avaliadas 59 mulheres (onívoras e vegetarianas). O Índice de Massa Corporal (relação do peso com a altura elevada ao quadrado) foi equivalente (cerca de 21 kg/m2), assim como a idade (em torno de 33 anos).

Pela avaliação da composição corporal, ambos os grupos tiveram distribuição equivalente de gordura corporal e massa magra.

Isso tudo quer dizer que o grupo não-vegetariano e vegetariano foi bastante homogêneo e muito adequado para comparar as diferenças encontradas em exames laboratoriais. Quando a homogeneidade é tão grande quanto a que encontrei, não é necessária uma amostra enorme de participantes.

Sobre o que vamos avaliar?
Conversaremos sobre os achados referentes ao colesterol, infamação, controle do açúcar no sangue e riso para diabetes, avaliação do estado nutricional de proteínas, ferro, vitamina B12, ácido fólico e homocisteína. Nesse texto, começaremos pelas doenças cardiovasculares. Nos demias conversaremos sobre os outros assuntos.

RISCO PARA DOENÇAS CARDIOVASCULARES

Colesterol total e frações

A avaliação dos níveis de colesterol ganhou importância ao ser descoberto que pessoas com níveis elevados tinham maior risco para apresentar obstrução dos vasos sanguíneos por placas de gordura (ateroma), desencadeando o infarto do coração, derrame cerebral, dentre outros desfechos às vezes fatais.

É bastante conhecido na literatura científica que os vegetarianos têm níveis de colesterol mais baixos do que os não vegetarianos. Também encontramos esse dado, com redução de 10,4% dos níveis de colesterol nos vegetarianos avaliados. Vale ressaltar que vegetarianos e não vegetarianos estavam com valores de colesterol dentro do que é considerado normal.

No entanto, para a avaliação do colesterol, não basta apenas olhar o colesterol total, pois tudo que é total provém da soma das partes. Assim, o colesterol que chamamos de “bom” (HDL), o “ruim” (LDL) e outro que chamamos VLDL somados resultam o colesterol total.

Assim, temos pessoas com colesterol total elevado com boa relação dessas partes, o que não seria um problema; mas também pessoas com um colesterol total com valores normais, porém com má relação entre as partes, o que pode ser um problema.

Existem índices específicos para verificar a proporção entre o colesterol total, HDL e LDL e é sempre importante, em qualquer dosagem, avaliá-los.

Avaliamos esses índices no estudo e verificamos que vegetarianos e não vegetarianos apresentavam boa proporção dessas frações (partes do colesterol) e sem diferença entre os grupos. Esse mesmo dado é encontrado nos estudos científicos publicados.

Assim, é muito provável que a redução da mortalidade por doenças cardiovasculares, bastante conhecida nas populações vegetarianas, não ocorra apenas pela redução dos níveis de colesterol, pois não houve diferenças (assim como mostra a literatura científica), entre as proporções do colesterol total, do HDL e LDL entre vegetarianos e não vegetarianos.

Dessa forma, os benefícios da redução dos níveis de colesterol, não traduzem necessariamente redução do risco para doenças cardiovasculares.

Triglicérides

Triglicérides são um tipo de gordura (diferente do colesterol) que podem causar sérios problemas quando elevados.

Eles costumam ser mais influenciados pela alimentação do que o colesterol. Excesso de açúcar, gordura e álcool tendem a elevá-lo. Pessoas com uma alimentação mais frugal tendem a ter níveis mais baixos.

Há casos de colesterol elevado onde o vilão são os triglicérides.

Vegetarianos e não-vegetarianos apresentaram níveis de triglicérides semelhantes na literatura científica, e foi isso que encontramos no estudo.

Inflamação

Outro fator associado ao risco de doenças cardiovasculares é o nível de inflamação do organismo. Podemos entender inflamação como uma resposta do corpo frente a uma agressão que sobre, culminando em uma resposta bastante complexa de eventos no nosso corpo.

Esse tipo de inflamação não é resolvido tomando antiinflamatórios.

Sabemos hoje que aterosclerose é uma doença inflamatória crônica, de origem multifatorial (vários motivos) decorrente da agressão à parte interna do vaso sanguíneo, favorecendo a formação de placas de gordura dentro desse vaso. Se essa placa aumenta muito de tamanho, o local que ela irrigava (levava sangue) pode ficar obstruído e o sangue não chega. Assim, o local deixa de receber sangue (oxigênio) e morre. É um exemplo de um infarto cardíaco, por exemplo, onde parte do músculo do coração morre.

Há inúmeros exames de sangue que podem medir a quantidade de inflamação que temos no organismo. Dentre eles, é muito utilizado a chamada Proteína C Reativa Ultrasensível. Essa proteína fica elevada no organismo sempre que há mais inflamação, e é bastante utilizada na prática clínica.

Os dados que encontramos foram equivalentes entre os vegetarianos e não vegetarianos. Assim, por esse parâmetro, não houve diferença nos níveis de inflamação entre os grupos, fator que poderia acelerar o surgimento de doenças cardiovasculares.


Homocisteína

É um componente que aumenta no sangue quando há deficiência de alguns nutrientes, especialmente o ácido fólico (vitamina B9) e vitamina B12. Sua elevação pode aumentar o risco para doenças cardiovasculares.

Os níveis de homocisteína encontrados foram equivalentes, mas com tendência a serem maiores no grupo vegetariano.
Tanto vegetarianos quanto não vegetarianos tinham os níveis de homocisteína dosados acima do que seria o ideal.


Outros dados

A avaliação de outros fatores de risco para doenças cardiovasculares, como a presença de hipertensão arterial, excesso de peso, diabetes e tabagismo foram todos excluídos na seleção dos pacientes.

Por que vegetarianos têm menor mortalidade por doenças cardiovasculares?

Essa resposta ainda não é clara. Há diversas teorias para isso, mas ainda não temos respostas definitivas.