Problemas de Saúde

Câncer

Câncer é o crescimento descontrolado e a expansão de células que podem afetar quase qualquer tecido do corpo.

Câncer não é uma doença única. Utilizamos esse rótulo, de forma genérica, para designar mais de 100 doenças diferentes.

Cada tipo de câncer tem características, desenvolvimento, evolução e tratamentos bastante particularizados.

A Organização Mundial de Saúde aponta o câncer como responsável por 12,5% das mortes no mundo, estando em segundo lugar dentre as doenças que mais matam. As doenças cardiovasculares são as primeiras colocadas.

Após o tabaco, a dieta é considerada o principal fator incriminado no desenvolvimento do câncer, sendo considerado um fator prevenível. Fatores relacionados à dieta estão incriminados em cerca de 30% dos casos de câncer em países desenvolvidos e talvez em cerca de 20% em países em desenvolvimento. É possível que essa diferença se faça pelo maior consumo de alimentos industrializados nos países desenvolvidos.

A alimentação cura o câncer?

Embora muitos profissionais médicos que seguem uma linha naturalista afirmem que sim, a literatura científica não tem publicações que confirmem que isso ocorra.

Para a comunidade científica é fundamental que esses profissionais, que afirmam ter pacientes curados, demonstrem se o diagnóstico estava confirmado e correto, o local e o estadiamento (nível de desenvolvimento) do câncer tratado, a terapia utilizada e a evolução do caso até atingir a cura. Com esses dados em mãos, após a sua publicação, a metodologia pode ser aplicada por profissionais no mundo inteiro. Isso seria um trabalho importante para a humanidade, e ajudaria, com o tempo, a verificar a veracidade dos fatos, assim como as melhores formas de abordar essa doença.

Apesar de não haver a comprovação científica da cura do câncer por meio da alimentação, nada impede que você, que tem algum tipo de câncer, siga uma alimentação natural, integral e vegetariana. Isso inclusive é recomendado.

O que sugiro é que não abandone um tratamento convencional trocando-o por um não convencional. Se você quer testar o resultado do tratamento natural, faça isso acompanhando a evolução do tumor, desde que o estágio que ele se encontre permita isso.

Alimentação previne o câncer?

Sim! Há diversos estudos que demonstram que a prevenção está fortemente associada com a alimentação e o estilo de vida. Vamos conversar sobre isso.

Alimentos recomendados

Os alimentos vegetais e integrais (incluindo cereais integrais) são as fontes principais de fitoquímicos, que têm diversos efeitos importantes na prevenção do câncer.

Os cereais integrais, frutas e hortaliças também são importantes fontes de compostos (inulina, frutooligosacarídeo), que alteram o trânsito intestinal reduzindo o tempo de exposição de substâncias tóxicas ao intestino, além .

Dietas baseadas em plantas, assim como a restrição energética e protéica, reduzem os níveis de fator de crescimento insulina-like (IGF-I). Veganos têm apresentado níveis séricos de IGF-I 9% mais baixos do que os outros tipos de vegetarianos e dos onívoros. Estudos têm sugerido que altos níveis sanguíneos de IGF-I estão associados com aumento do risco de câncer de intestino (cólon e reto), mama, próstata e pulmão.

São vários os fatores protetores contra o câncer encontrados nas dietas baseadas em alimentos vegetais e integrais:

1) Cereais integrais

O seu consumo está relacionado epidemiologicamente com a proteção do câncer, especialmente do trato gastrointestinal, como o gástrico, do cólon, assim como os hormônio dependentes (mama e próstata).

Mecanismos que podem explicar o efeito protetor:

1. Alta concentração de fibras. Aumenta a velocidade do trânsito no intestino grosso, reduzindo o tempo de exposição de produtos potencialmente cancerígenos com o seu epitélio (parte interna do intestino). Influencia os níveis de hormônios sexuais, aumentando a excreção fecal de estrógenos, o que teria efeito positivo para cânceres relacionados a hormônios, como de mama e próstata.

2. Presença de oligossacarídeos. Aumenta a proliferação de bactérias positivas (bifidobactérias) no intestino e diminui a concentração de algumas outras bactérias (E. coli, Clostridium e Bacterióides). Ao que parece, essa modificação da flora intestinal pode reduzir o nível de algumas enzimas (azorredutase, betaglucoronidase e nitrorredutase) do intestino grosso que são responsáveis pela conversão de substâncias em produtos cancerígenos.

3. Ação fermentativa dos carboidratos. Favorecem a produção de compostos (ácidos graxos de cadeia curta) que servem como combustível para as células intestinais, reduzem o pH do intestino grosso (o que é benéfico) e indução as células doentes a se "suicidarem".

4. Abundância em elementos antioxidantes. A vitamina E é removida do grão pelo processo de refinamento. Estudos sugerem que além da sua ação como antioxidante atua inibindo a formação de nitrosaminas quando em pH ácido (como ocorre pela ação da fermentação das fibras presentes no grão integral). Apresentam minerais como cobre, zinco e magnésio. Podem ser uma boa fonte de selênio, dependendo do teor do mineral existente no solo. O processo de refinamento remove o selênio do grão.

5. Fontes de fitoestrogênios, incluindo isoflavonas e lignanas. São compostos com estrutura similar ao estrogênio (hormônio feminino), relacionando-se com a proteção de cânceres de influência hormonal (no caso dos fitoestrogênios, particularmente na prevenção do câncer de mama e próstata). São propostos efeitos protetores. O consumo de alimentos contendo lignanas tem sido associado com a provável inibição de tumores mamários e redução do risco de câncer de mama e de intestino grosso. A melhor forma de se conseguir lignanas através da dieta está no consumo de grãos integrais. Farelo de cereais integrais reduzem o nível sanguíneo de alguns hormônios sexuais (estradiol e estrona) em mulheres antes da menopausa.

6. Atuam na glicemia. A ação da insulina e o câncer de cólon estão relacionados. A insulina é um importante fator de desenvolvimento de câncer das células do intestino grosso. Estudos epidemiológicos têm encontrado analogia entre os fatores que promovem a elevação dos níveis de insulina e o risco de câncer de cólon, incluindo a obesidade e o sedentarismo. O uso de grãos integrais está associado com a digestão e absorção mais lenta de carboidratos, afetando de forma significativa a glicemia após as refeições. Efeito contrário é demonstrado com o uso de cereais refinados. Devido a esses mecanismos é possível que  reduzam o risco de câncer de mama e cólon.

7. Outros compostos encontrados nos grãos integrais. Compostos fenólicos têm sugerido atividade antioxidante. Ácido felúrico e cafeico podem atuar na prevenção da formação de produtos carcinogênicos. O ácido fítico apresenta efeito antioxidante, neutralizando os radicais livres do oxigênio produzidos pelas bactérias intestinais.

2) Frutas e vegetais

Provavelmente diminuem o risco de vários tipos de câncer, principalmente os do trato gastrointestinal e do aparelho respiratório. Provável redução do risco de câncer da cavidade oral, faringe, esôfago, estômago, cólon, reto e pulmão. As frutas e vegetais crus são utilizados em maior proporção nas dietas vegetarianas do que na macrobiótica.

3) Algas

Podem reduzir o risco de câncer de mama e endométrio. A explicação pode ser devido às atividades anti-tumorais e imunológicas do fucoidan (um polissacarídeo sulfatado), encontrado quase que exclusivamente na alga marinha marrom e pela fucoxantina, o carotenóide responsável pela cor marrom das algas.

4) Feijões

O uso de feijões, especialmente o de soja, está associado com a redução do risco de cânceres hormônio dependentes como o de mama, endométrio e próstata. Estudos sugerem uma diminuição do risco de outros cânceres como o de estômago, quando utilizado os seus produtos não fermentados. No entanto, a relação entre o uso de seus produtos fermentados com o uso de sal, frutas e vegetais ainda merece mais estudos.

Produtos da soja e outros legumes podem reduzir o risco de câncer pela presença de algumas substâncias (inibidores da protease e saponinas).

Contém fitoestrógenos como genisteína e daidzeína. Esses isoflavonóides têm ação no metabolismo do estrogênio, efeito antioxidante e inibidores da proliferação de células defeituosas, que gerariam tumores.

5) Alimentos naturais e orgânicos

Reduz o consumo de pesticidas, herbicidas e outras substâncias químicas. Apesar da sua associação com a dieta e risco de câncer ser controversa, alguns trabalhos demonstram que a exposição a esses compostos, ao se utilizar produtos orgânicos, é bastante minimizada.


Um estudo comparando o teor de nutrientes em alimentos orgânicos e não orgânicos demonstrou que nos primeiros há uma maior concentração de vitamina C e menor de nitrato.

Aparentemente, os alimentos orgânicos possuem maior atividade anticancerígena do que os cultivados convencionalmente.   


Alimentos não recomendados

Alimentos incriminados no aumento de risco de câncer são reduzidos na dieta macrobiótica padrão, assim como da dieta vegetariana estrita orgânica integral.

1) Cereais refinados

Desencorajado pela macrobiótica, está fortemente relacionado ao aumento de risco de câncer, principalmente com o de cólon e reto. O  aumento da insulina no sangue (hiperinsulinismo) pode ser uma das possíveis explicações. Alguns estudos também relacionam o seu uso com câncer de ovário.

O processo de refinamento reduz a quantidade de fibras, vitamina E, piridoxina, ácido fólico, colina, selênio, cromo, zinco, magnésio, cobre, sódio e potássio do grão.

2) Carne vermelha e carnes processadas (embutidos)

Possível aumento do risco de câncer de cólon e reto (aumento do risco em 12 a 17% quando há consumo diário de 100 g de carne vermelha e aumento de 49% do risco quando há consumo diário de 25 g de carne processada), próstata, pâncreas e endométrio.

Teorias para explicar esse achado: hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e aminas heterocíclicas com potencial mutagênico podem ser formados quando a carne é cozida a altas temperaturas; nitratos em produtos defumados; excesso de sal; formação de compostos mutagênicos derivados do nitrato no intestino grosso; lesão às células do o do intestino grosso produzida pelo ferro heme .

3) Ovos

Associado ao aumento do risco de câncer de ovário.

4) Laticínios

Relacionado ao aumento do risco de câncer de próstata e ovário em alguns estudos. No entanto, tais achados não são unânimes com relação ao câncer de ovário.

A ingestão de laticínios está relacionada a um moderado aumento no sangue de IGF-I (composto com atividade ligada ao surgimento de câncer de intestino grosso) . Porém, a associação com esse tipo de câncer ainda é controversa.

5) Sal (cloreto de sódio)


Incriminado no câncer de cavidade oral, faringe, estômago e esôfago. Sua redução ocorre principalmente pela eliminação de produtos industrializados.


Modificação no estilo de vida

Tabagismo, sedentarismo e consumo de álcool têm relação importante no desenvolvimento de diversos tipos de câncer.

1) Sedentarismo

Aumento do risco de câncer de cólon e reto.

2) Obesidade

Está incriminada no aumento do risco de câncer de esôfago (adenocarcinoma), cólon, reto, mama, endométrio e rim.

3) Álcool

Causa câncer de cavidade oral, faringe, laringe, esôfago e fígado. Incriminado em um pequeno aumento no risco de câncer de mama. 

4) Tabagismo

Relacionada ao aumento da incidência de câncer de cavidade oral, faringe, esôfago, pâncreas, laringe e pulmão.

Estudos sobre vegetarianismo e câncer

Há alguns estudos na literatura científica que compararam a mortalidade por câncer em vegetarianos e não vegetarianos.

Estudo publicado em 1994, realizado na Alemanha comparando a mortalidade por câncer de 1904 vegetarianos com as taxas de mortalidade por câncer dos onívoros chegou à conclusão de que um estilo de vida vegetariano com duração de mais de 20 anos está associado com a redução de mortalidade de todos os tipos de câncer.

Outra publicação, em 1999, que reuniu cinco estudos, somando 8.300 mortes em 76.000 vegetarianos não encontrou diferenças entre onívoros e vegetarianos.

Em 1999, um estudo publicado por Fraser, considerado um dos mais bem desenhados, avaliou 34.198 adventistas, sendo 49,2% onívoros, 29,5% vegetarianos e 21,2% semi-vegetarianos. Esse estudo demonstrou que as pessoas que comem carne têm chance 54% maior de ter câncer de próstata, e 88% maior de ter câncer de intestino grosso.

Outro estudo, publicado em 2004, comparando a incidência de câncer de intestino grosso em 10.998 vegetarianos e não vegetarianos, encontrou redução do risco em vegetarianos, porém esses valores não foram estatisticamente significativos. Esse estudo apresenta falhas na sua metodologia, já que não discrimina o tempo que as pessoas eram vegetarianas, classificava como onívoros pessoas semi-vegetararianas e utilizava a idade dos participantes de forma inadequada para a avaliação pretendida.

Um outro estudo, publicado em 2005, seguiu 679 não vegetarianos (incluído os semi-vegetarianos) “conscientes sobre saúde” e 1.225 lactovegetarianos. Não foi encontrado diferença com relação à mortalidade.


Conclusão

Só parar de comer carne não é garantia de ter mais saúde, apesar da carne estar associada à maior probabilidade de desenvolver diversas doenças.

Há vegetarianos que apenas param de comer carne e comem tudo o que é nocivo que encontram pela frente.

O que encontramos, de forma geral, são hábitos mais saudáveis em indivíduos vegetarianos, e isso  favorece a proteção contra diversos tipos de câncer.

A dieta vegetariana costuma vir com um “pacote de saúde”, que inclui: menor peso com relação à altura, maior consumo de cereais integrais, frutas, hortaliças e alimentos funcionais, melhor defesa contra os radicais livres, menor índice de tabagismo e ausência do consumo de carnes. Esse conjunto favorece a proteção contra diversos tipos de câncer.

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