Infância

Questões sobre vacinação

Vacinação não tem relação direta com vegetarianismo, mas alguns vegetarianos têm se posicionado contra a vacinação de crianças embasados em textos que não apresentam fundamentação sólida para determinar tal conduta.

O objetivo desse texto é fornecer aos pais argumentos adequados sobre a decisão de vacinar ou não os seus filhos.

Texto escrito pelo Dr Orlei Ribeiro de Araujo (médico pediatra, infectologista).

Para acessar em PDF clique em: Questões sobre vacinação

Questões sobre a vacinação

 

Por Dr Orlei Ribeiro de Araujo – médico pediatra


Uma pergunta que surgiu em um fórum vegetariano  levantou uma preocupação: uma mãe gostaria de saber se existem vacinas veganas, e afirmava que não estava  fazendo a vacinação de rotina em seu filho por ter tido a informação de que vacinas conteriam células de boi. Não é uma questão banal: a cada dia cresce o movimento anti-vacinação, e informações distorcidas como esta estão disponíveis  em vários locais na internet, entre grupos religiosos e vegetarianos.   O sentimento da comunidade médica é de apreensão, pois é evidente que estas pessoas, por não terem tido contato com as doenças que foram erradicadas pela vacinação, não sabem o que significa um surto de poliomielite ou sarampo. Não vemos mais crianças paralisadas, usando aparelhos para locomoção, ou cobertas de feridas de varíola (fotos abaixo). Desta forma, o fantasma das doenças ficou distante, e as pessoas passaram a temer as vacinas. Alegando motivos religiosos ou crenças pessoais, muitos pais têm impedido a vacinação de crianças  nos Estados Unidos, e já existe um reflexo: nos estados onde basta  um declaração dos pais para escapar da vacinação obrigatória, observou-se um aumento de 50% nos casos de coqueluche. Um surto de sarampo vitimou 34 crianças no estado de Indiana, cujos pais alegaram motivações religiosas para a não-vacinação. A triste síndrome da rubéola congênita, desaparecida há tantos anos, voltou a aparecer na Holanda em 2004: 29 gestantes foram infectadas. A   rubéola congênita  leva  a graves malformações cardíacas e cerebrais. O surto teve origem em uma comunidade religiosa que se abstinha da vacinação.  A decisão de não vacinar os filhos ou não se vacinar não é tão simples, pois tem conseqüências para outras pessoas fora da família.

 

 

vacinas1.jpg vacinas2.jpg
Fotos: crianças com seqüelas de poliomielite e lesões de varíola, doenças desaparecidas com a vacianação

 

Tentaremos esclarecer alguns dos questionamentos  mais comuns das pessoas que se opõe à vacinação.

As vacinas contém células e outros produtos de origem animal?

De fato, a maioria esmagadora das vacinas têm, durante o processo de fabricação, contato com produtos de origem animal.  Isto se deve ao simples fato de que as bactérias e vírus que causam doenças são parasitas obrigatórios de homens e animais. Para produzir vacinas, é necessário cultivar estes agentes em laboratório, e a maioria  não se reproduz sem alguns nutrientes de origem animal. Assim, bactérias  e vírus são cultivados em meios aos quais pode ser necessário acrescentar produtos como  gelatina, aminoácidos, glicerol ou soro (parte líquida do sangue sem as células) de bois ou outros animais, como porcos,  e até mesmo humano. Alguns vírus só se reproduzem em culturas de células (como o da pólio) ou em ovos (de galinha) embrionados, como o do vacina da gripe.  Nas etapas subsequentes da fabricação, um exaustivo processo de filtração elimina estes produtos de origem animal, mas  resíduos de proteínas podem permanecer. Um exemplo são as vacinas contra influenza (gripe),  que podem conter resíduos de proteínas de ovo.   Não permanecem células animais nas vacinas. Podemos afirmar que  praticamente inexistem vacinas veganas, que utilizem apenas meios sintéticos para produção. Podemos considerar “veganas”, de acordo com informações da literatura, apenas as vacinas contra hepatite B e  contra Haemophilus influenzae da Merck Sharp e Dohme, e as vacinas tríplice acelular (difteria, coqueluche, tétano) e contra cólera da Aventis Pasteur, nas quais  não há relato de uso de  produtos animais na fabricação.

As vacinas contém produtos químicos que podem fazer mal à saúde?

Basicamente, as vacinas contém preservativos, que as mantém livres de contaminação, e adjuvantes, que são produtos que potencializam a resposta imunológica. Podem conter traços de antibióticos.

Houve uma grande preocupação com o preservativo timerosal, por conter mercúrio. Um artigo alarmista associou este preservativo da vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) ao desenvolvimento de autismo em 12 crianças, em 1998, mas os autores foram obrigados a se retratar, devido à clara falta de evidências para esta afirmação. Sabemos, com segurança, que a quantidade de mercúrio acumulada no corpo uma criança  com a vacinação completa  está muito longe (cerca de mil vezes menos) da quantidade necessária para causar qualquer dano à saúde. De qualquer forma, este preservativo foi removido da maioria das vacinas. Os outros preservativos (fenol e fenoxietanol) nunca foram relacionados a nenhum problema sério, existindo apenas um relato de eczema possivelmente relacionado ao fenoxietanol.

 

O adjuvante mais utilizado é o hidróxido de alumínio, que pode estar relacionado a  reações locais  como vermelhidão e endurecimento no local da aplicação, sem nenhum relato de efeitos prejudiciais sérios.

 

Os antibióticos utilizados para evitar contaminação durante a produção (neomicina, polimixina B, entre outros) podem deixar resíduos nas vacinas. São antibióticos usados também em algumas doenças humanas, e os resíduos vacinais não trazem riscos, a não ser de reações  locais (vermelhidão). Nunca foram documentadas reações sérias a estes resíduos.

 

É verdade que restos de fetos abortados são utilizados na fabricação das vacinas?

 

Não. Esta história  tem origem na origem das linhagens de células diplóides utilizadas em culturas de vírus (como o da raiva, hepatite A e varicela) para produção de vacinas. Estas células, quando colocadas em meios de cultura adequados, se reproduzem indefinidamente. Duas das  linhagens utilizadas atualmente ( denominadas MRC-5 e WI-38) são originárias de tecido embrionário de  três fetos abortados nos anos 1960, doados para pesquisa. Nunca foram feitos abortos com o fim específico de produzir vacinas, e as células não estão presentes no produto final. Como existe a preocupação, por parte de pessoas religiosas, de serem  cúmplices dos abortamentos que originaram as células nos anos 60  ao receber uma vacina,  o US National Catholic Bioethics Center se manifestou sobre o assunto, de maneira bastante lúcida, concluindo que o uso destas vacinas não é cúmplice, e nem contrário à oposição religiosa ao aborto. As vacinas foram consideradas éticas pelos analistas católicos, por não existir vínculo causal nem temporal entre os abortamentos de mais de 40 anos atrás e a produção atual.

 

Os médicos escondem os efeitos colaterais das vacinas?

 

Não. A notificação de efeitos vacinais adversos é obrigatória em vários países, e são dados públicos. Uma boa revisão são os dados  americanos da FDA (agência reguladora de medicamentos) e dos CDC (Centers for Disease Control, disponíveis em: http://www.cdc.gov/mmwr/PDF/ss/ss5201.pdf e http://www.fda.gov/

 

É  verdade que as vacinas podem causar até morte e efeitos colaterais graves?

 

Vacinas são imperfeitas, como qualquer outro produto humano, e podem causar efeitos colaterais. A imensa maioria destes efeitos é leve. Uma compilação de 10 anos de registros dos CDC (1991-2001) mostra que, em mais de 1 bilhão e 900 milhões de dose de 27 tipos de  vacinas  aplicadas, foram notificados 11,4 relatos de efeitos colaterais possivelmente associados à vacinação em cada 100.000 doses aplicadas. Destes, a febre foi o relato mais comum (26%), seguida de dor, inchaço e vermelhidão no local da aplicação. 14,2% (1,6 casos a cada 100.000 doses) destes relatos eram de possíveis efeitos sérios (por definição, efeitos sérios são os que causam lesão permanente, hospitalização, risco de morte  e morte). É importante ressaltar que a notificação não implica causalidade, existindo em princípio apenas a relação temporal.  Todos os relatos de morte foram investigados, e a imensa maioria foi de crianças vítimas da Síndrome de Morte Súbita da Infância, não existindo vínculo causal com  a vacinação. De 206 mortes possivelmente relacionadas à vacinação, apenas a morte de uma mulher de 28 anos, que apresentou um doença neurológica aguda (Síndrome de Guillain-Barré) após uma vacina anti-tetânica,  foi considerada como causada pela vacina.

 

As vacinas de um modo geral são seguras,  e o risco de efeitos colaterais é pequeno e imensamente compensado pelos benefícios.

 

“Como vegetarianos têm um modo de vida saudável e uma alimentação correta, não necessitam receber vacinas, que são anti-naturais e produzem alterações não-naturais no sistema imunológico”

 

Infelizmente, modos de vida  e pensamentos corretos não nos tornam imunes à infecção. As  vacinas provocam uma  resposta natural, que é a formação de anticorpos contra  um agente infeccioso  e a memória desta resposta. A  grande descoberta humana foi provocar esta resposta sem a necessidade de desenvolver a doença.

 

O que é “Herd Immunity”?

 

Este termo, freqüentemente utilizado em políticas de saúde pública, significa “imunidade em multidão,” traduzindo a idéia de que, se todos são vacinados contra uma doença evitável por imunização,  esta doença pode desaparecer. Uma pessoa não-vacinada pode trazer o vírus ou bactéria de volta para uma comunidade ou um país onde a doença já não se manifestava. Um bom exemplo são os casos de sarampo iniciados no Brasil em 2005, quando o vírus foi trazido da Ásia por um surfista. Duas crianças que adquiriram  a doença, por terem viajado com o surfista em um vôo, eram irmãos  que não foram vacinados por orientação  de medicinas alternativas.

( http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI600760-EI715,00.html )

 

“Ao obrigar  pessoas a tomar vacinas, os governos estão violando as liberdades individuais.”

 

Esta discussão foge da área médica, mas existem algumas considerações: sabemos que as vacinas são necessárias para controlar doenças graves. A não-vacinação em massa pode provocar a morte e o sofrimento de milhões de pessoas. Uma pessoa que decide não se vacinar pode colocar em risco seus próximos e a sua comunidade, não sendo, portanto, uma atitude sem conseqüências. Devemos considerar que, ao abrir mão de alguns de nossos princípios e assumir um pequeno risco ou desconforto  na vacinação, estaremos manifestando a preocupação com o próximo, desejando o bem-estar de todos.

 

A questão é mais complicada quando envolve a vacinação de crianças. Ainda que seja uma atitude egoísta, um adulto pode perfeitamente decidir não se vacinar, mas será que os pais têm o direito de negar aos filhos a proteção da vacina? O Estatuto da Criança e do Adolescente nos diz:

 

Art. 3º - “A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.”

 

Art. 7º - “A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.”

 

Do ponto de vista da proteção à criança, negar-lhe a vacinação pode ser considerado negligência. Não podemos estender à criança as nossas convicções, e sim respeitá-la como pessoa e pensar na sua proteção. É sempre melhor, ao invés de obrigar os pais a vacinar os filhos,  informá-los dos riscos e convencê-los de que os benefícios os suplantam.

 

Um sugestão de leitura: “SOBRE VACINAÇÃO: SEIS CONCEPÇÕES ERRÔNEAS COMUNS” – disponível em

http://www.sbim.org.br/documentos/SobreVacinacao.doc

  • Hits: 10356