Suplementação

Particularidades no uso de suplementos

Seguir uma alimentação em que se indica o uso de suplementos em algumas situações, traz a sensação de que algo falta nessa dieta. No entanto, há indicações de uso de suplementos para quem come ou não a carne.
Esse assunto é mais complexo do que parece. Vamos conversar sobre ele.

Terminologias

Há diferenças entre os termos “complemento”, “suplemento” e “medicamento”.

Complemento – é o que usamos para atingir a necessidade do nutriente, frente a uma dieta insuficiente. Assim, se uma pessoa precisa de 1.000 mg de cálcio, mas ingere 800 mg, podemos prescrever um complemento com 200 mg.

Suplemento – é o que damos à mais, frente às necessidades da pessoa.

Medicamento – é um produto farmacêutico elaborado com finalidade profilática ou curativa.

O mesmo nutriente pode ser, de acordo com a necessidade da pessoa, suplemento, complemento ou medicamento. Em algumas situações os termos podem ter significados muito próximos uns dos outros.

A vitamina B12 ingerida por cápsulas pode ser usada para somar à alimentação quando a pessoa não ingere fontes de B12. Nesse caso estamos fazendo uma complementação de B12. Mas ela pode ser usada em doses elevadas para tratar uma deficiência. Nesse caso estamos fazendo uma medicação de B12.

Devido ao fato desses termos trazerem possibilidades de confusão, vou utilizar apenas o termo “suplementação” para me referir ao uso de um produto utilizado por cápsulas, comprimidos ou qualquer outra apresentação, oriundos da indústria farmacêutica.

QUANDO A RECOMENDAÇÃO DE SUPLEMENTAÇÃO É FEITA PARA TODA A POPULAÇÃO

Sabemos que a deficiência de ferro acomete 50% das crianças (onívoras) com menos de 5 anos de idade no Brasil. Essa mesma deficiência ocorre em 1/3 da população mundial. Frente a esse dado, seria razoável se providenciássemos fontes seguras de ingestão de ferro para a população inteira, pois o índice de carência é muito elevado. Assim, medidas de fortificação de ferro nas farinhas que utilizamos acabam sendo uma medida de saúde coletiva. Nessa situação, se você não tem deficiência e nem está propenso a ter, receberá o ferro do mesmo modo ao ingerir a farinha.

Por esse mesmo raciocínio, se sabemos que 50% dos vegetarianos têm carência de B12, preconizamos que todos os vegetarianos façam uso dela.

Trabalhar com a população ou com o indivíduo isolado são situações completamente diferentes. As medidas direcionadas para população levam em conta o risco de uma carência nutricional específica afetar determinada parcela dessa população. Se a parcela afetada é grande, pode-se recomendar que todos utilizem um suplemento, precisando ou não, desde que ele não seja nocivo para os que não estão com deficiência.

O problema maior é quando algumas deficiências conhecidas ainda são negligenciadas, como a própria necessidade de uso de B12 para quem come carne, visto que 40% dos não-vegetarianos da América Latina têm deficiência de B12. Já deveria haver a mesma recomendação de uso para onívoros, como se tem para vegetarianos.

QUANDO A RECOMENDAÇÃO DE SUPLEMENTAÇÃO É FEITA PARA O INDIVÍDUO.

Aqui a situação é completamente diferente.

Sabemos que 50% dos vegetarianos têm deficiência de B12. Mas se você está frente a um médico para ser avaliado avaliação, parte do objetivo dessa avaliação é saber se você faz parte dos 50% com carência ou dos 50% sem carência.

O conhecimento de que grande parte dos vegetarianos (ou onívoros) tem carência de B12 não foi feito para que o médico ou nutricionista prescreva B12 rotineiramente a ele na consulta individual, mas sim para saber que aquele indivíduo deve ser bem avaliado frente ao nutriente específico, pois ele faz parte de uma população com risco elevado de estar com uma deficiência específica.

A suplementação para um indivíduo numa consulta individual deve ser feito após avaliação da real necessidade de uso, e não porque a deficiência é comum!

Aliás, é justamente para isso que uma pessoa procura avaliação. Para saber como ela, individualmente, está, e não como as pessoas que seguem uma dieta como ela estão.

O problema aqui é quando a avaliação não é feita e o indivíduo não recebe o que deveria receber ou recebe o que não precisa receber.

Na avaliação individual tudo é personalizado. Se não, qual seria o motivo para se fazer uma avaliação?

QUANDO O PROBLEMA É A ALIMENTAÇÃO INADEQUADA.

Erros alimentares, indiscutivelmente, podem levar a deficiências nutricionais a curto, médio ou longo prazo. O impacto da deficiência para o organismo vai depender da intensidade dessa deficiência e do tempo que ela existe no indivíduo.

Algumas deficiências, quando ajustamos a alimentação, podem ser sanadas rapidamente sem suplementos. Outras, mesmo com a alimentação ajustada, precisarão de suplementação para elevar os nutrientes depletados a níveis normais e, só depois disso, suspender os suplementos (se possível).

A deficiência de nutrientes, quando simplesmente por erro alimentar, após tratadas, costuma ser facilmente ajustada e prevenida quando o indivíduo muda os hábitos.

Assim, nesse tipo de deficiência, os suplementos podem ganhar espaço dependendo do tipo de carência, e a alimentação adequada assume papel fundamental para evitar sua recorrência.

QUANDO A DEFICIÊNCIA NUTRICIONAL NÃO TEM RELAÇÃO DIRETA COM A ALIMENTAÇÃO.

Faz parte do nosso raciocínio lógico a idéia de que se a alimentação traz todos os nutrientes, não teremos carência de nenhum deles. E é aí que nos enganamos.

Deficiências comuns, como de ferro e B12, têm muito mais relação com o funcionamento do nosso organismo do que com a baixa ingestão. Na maioria dos casos desse tipo, a alimentação não é suficiente prevenir ou curar a deficiência, comendo ou não carne.

Qualquer situação que leve a perdas (intestinais, sangramentos...) ou aumento do consumo interno (maior atividade metabólica) pode fazer com que essas perdas, ou consumo interno, sejam maiores do que nossa capacidade de obter o nutriente, por mais que a alimentação seja perfeita com ou sem carne.

São situações que levam à perda ou maior consumo metabólico de nutrientes:

- perda de sangue (menstruação, hemorróidas...)
- gestação
- lactação
- primeiros 2 anos de vida
- doação de sangue
- atividade intelectual intensa
- atividade física de longa duração ou intensidade
- diversas doenças


CONCLUSÕES

A indicação de uso de suplementos vai depender de diversos fatores:

1- Se você está sendo visto como membro de um grupo específico (vegetariano, por exemplo). Nesse caso, você “vira farinha do mesmo saco”, sendo orientado a utilizar um suplemento, precisando (individualmente) ou não.

2- Se você está sendo avaliado individualmente. Nesse caso a necessidade é claramente observada e talvez nem precise utilizar algo que todos dizem que precisa. Essa avaliação depende de sinais, sintomas e avaliação laboratorial.

Sempre é fundamental saber se a deficiência:

1- se deve a má alimentação;

2- se deve a perda ou utilização elevada do nutriente;

3- pode ser corrigida pela alimentação ou depende de suplementos.

Após utilizado o suplemento em dose e tempo estabelecidos, saber se é possível ou não ficar sem o suplemento. Isso vai depender da alimentação e do seu organismo.

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